2026 e o fim da polarização? Por que o Brasil ainda não está pronto para superar a divisão política

2026 e o fim da polarização? Por que o Brasil ainda não está pronto para superar a divisão política

Este texto é uma análise opinativa da redação do Política Forte.

Toda vez que uma eleição brasileira se aproxima, o mesmo discurso ressurge com força renovada: desta vez será diferente. Desta vez os candidatos vão falar de propostas, não de ataques. Desta vez o eleitorado vai escolher com a razão, não com o ódio. Desta vez o Brasil vai superar a polarização que divide famílias, amigos e o país inteiro há anos.

Não vai.

Não porque os brasileiros sejam incapazes de diálogo ou porque a política esteja condenada ao confronto permanente. Mas porque a polarização que vivemos não é um fenômeno superficial que desaparece com um ciclo eleitoral diferente — é o reflexo de divisões reais, profundas e estruturais na sociedade brasileira. E 2026, com tudo que já aconteceu e com tudo que ainda está por vir, não vai ser a exceção que confirmará a regra.

O que chamamos de polarização

Antes de argumentar por que a polarização vai continuar, é preciso definir o que estamos chamando por esse nome — porque o termo é usado de formas muito diferentes em contextos muito diferentes.

Há a polarização eleitoral — a divisão do eleitorado entre dois campos que competem por votos. Esse tipo de polarização é relativamente normal em democracias maduras e não é necessariamente problemático. Estados Unidos, França e Reino Unido convivem com forte polarização eleitoral sem que isso signifique ruptura democrática.

Há a polarização afetiva — a tendência de não apenas discordar de quem pensa diferente, mas de sentir hostilidade, desconfiança e até aversão por essas pessoas. Pesquisas mostram que esse tipo de polarização cresceu dramaticamente no Brasil nos últimos anos — e é muito mais corrosivo para a democracia do que a simples divergência eleitoral.

E há a polarização epistêmica — a divisão em torno não apenas de valores e preferências, mas de fatos básicos sobre a realidade. Quando grupos diferentes não apenas discordam sobre o que fazer, mas sobre o que aconteceu, o diálogo se torna estruturalmente impossível.

O Brasil de 2026 convive com os três tipos simultaneamente. E essa combinação é o que torna o otimismo sobre uma “superação da polarização” tão difícil de sustentar.

Por que a polarização não vai desaparecer em 2026

Há pelo menos cinco razões estruturais pelas quais a polarização brasileira vai persistir além das eleições de outubro.

Primeiro: as causas profundas não mudaram. A polarização brasileira contemporânea tem raízes que antecedem Bolsonaro e Lula — raízes na desigualdade econômica, na crise das instituições, na percepção de que o sistema político não representa os interesses da maioria. Enquanto essas causas estruturais persistirem, os efeitos — a raiva, a desconfiança, a hostilidade — também vão persistir.

Segundo: os algoritmos das redes sociais continuam funcionando da mesma forma. As plataformas digitais foram projetadas para maximizar engajamento — e conteúdo que gera raiva e indignação gera mais engajamento do que conteúdo que promove nuance e diálogo. Enquanto o modelo de negócios das redes sociais permanecer o mesmo, elas continuarão sendo máquinas de amplificar a polarização.

Terceiro: as lideranças políticas têm incentivos para manter a polarização. Candidatos que mobilizam eleitorado por meio do medo e da hostilidade ao adversário têm menos necessidade de apresentar propostas concretas e de explicar como vão implementá-las. A polarização é eleitoralmente conveniente para quem sabe usá-la — e as lideranças dos dois campos principais sabem.

Quarto: os eventos recentes aprofundaram as divisões. O 8 de janeiro, a condenação de Bolsonaro, o embate entre STF e Congresso — cada um desses eventos foi processado de forma radicalmente diferente pelos dois campos. Para um lado, são provas de que a democracia funcionou. Para o outro, são provas de que o sistema está capturado por adversários. Essa divergência interpretativa fundamental não se resolve com uma eleição.

Quinto: a memória coletiva está dividida. Brasileiros diferentes têm memórias radicalmente diferentes dos últimos anos — do governo Bolsonaro, da pandemia, da Lava Jato, do governo Lula. Quando grupos diferentes não compartilham sequer uma narrativa básica sobre o passado recente, construir um futuro comum se torna exponencialmente mais difícil.

O papel das eleições de outubro

Isso não significa que as eleições de outubro não importam — importam enormemente. O resultado vai determinar quem governa o país pelos próximos quatro anos, que políticas serão implementadas e que nomeações serão feitas para cargos cruciais como o STF e o Banco Central.

Mas as eleições não vão resolver a polarização. O lado vencedor vai celebrar. O lado perdedor vai contestar — com mais ou menos intensidade dependendo do resultado e das circunstâncias. E no dia seguinte às eleições, o Brasil vai continuar sendo um país profundamente dividido, com dois campos que mal conseguem conversar entre si.

O que poderia mudar — e por que não vai

Há coisas que poderiam, em tese, contribuir para reduzir a polarização no Brasil. Crescimento econômico sustentado que beneficie amplas camadas da população — porque parte significativa da raiva política tem raiz econômica. Reformas institucionais que aumentem a representatividade do sistema político. Regulação das redes sociais que desincentive a disseminação de desinformação. Lideranças políticas dispostas a construir pontes em vez de aprofundar trincheiras.

Nenhum desses fatores está presente no cenário de 2026 com a intensidade necessária para fazer diferença real. O crescimento econômico é insuficiente para reduzir percepções de injustiça acumuladas por décadas. As reformas institucionais não avançam porque os beneficiários do sistema atual têm interesse em mantê-lo. A regulação das redes sociais esbarra em disputas sobre liberdade de expressão. E as lideranças políticas — de todos os campos — têm interesse eleitoral na manutenção da divisão.

O que fazer com esse diagnóstico

Reconhecer que a polarização vai persistir não é um convite ao pessimismo ou à resignação. É um convite ao realismo — à construção de estratégias que funcionem dentro do cenário que realmente existe, não dentro do cenário que gostaríamos que existisse.

Para o cidadão comum, isso significa investir em fontes de informação diversas, cultivar relações com pessoas que pensam diferente e resistir à tentação de reduzir o adversário político a uma caricatura. Não porque isso vá mudar o resultado das eleições, mas porque a qualidade da democracia depende da qualidade do debate — e o debate melhora quando as pessoas que participam dele estão dispostas a complexidade.

Para as instituições, significa continuar funcionando mesmo sob pressão extrema — porque a alternativa é pior. O STF pode errar, o Congresso pode decepcionar, o governo pode desapontar. Mas instituições que funcionam de forma imperfeita são infinitamente preferíveis a instituições que não funcionam.

E para a política, significa que a superação da polarização — se vier — não vai vir de uma eleição. Vai vir de um processo longo, doloroso e sem garantia de sucesso, de reconstrução da confiança entre grupos que hoje mal conseguem se enxergar como compatriotas.

Outubro de 2026 é um passo nesse processo. Apenas um passo.

Redação Política Forte

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