Romeu Zema e os intocáveis. (foto: Reprodução/Instagram)
Na tarde de sexta-feira, 15 de maio de 2026, a Procuradoria-Geral da República (PGR) — chefiada pelo procurador-geral Paulo Gonet — protocolou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma denúncia por calúnia contra Romeu Zema (Partido Novo MG), ex-governador do estado e pré-candidato à presidência da República.
O alvo da denúncia é uma websérie publicada por Zema nas redes sociais chamada “Os Intocáveis” — vídeos produzidos com inteligência artificial (IA) que satirizam membros do STF (Supremo Tribunal Federal) usando fantoches. O ministro Gilmar Mendes foi o magistrado que se sentiu mais diretamente atingido e pediu à Justiça que Zema fosse responsabilizado. A resposta do ex-governador foi imediata e combativa: “Não vou recuar um milímetro.”
O caso reacendeu um dos debates mais relevantes da democracia brasileira: onde termina a liberdade de expressão e começa a calúnia?
Quem é Romeu Zema — perfil completo
Nome completo: Romeu Zema Neto Nascimento: 1963, Patos de Minas (MG) Partido: Novo — partido fundado em 2011 com proposta de gestão pública eficiente, livre mercado e combate à corrupção Cargo: Ex-governador de Minas Gerais (dois mandatos: 2019-2022 e 2023-2026) Status atual: Pré-candidato à presidência da República em 2026 Formação: Engenheiro, empresário do setor de materiais de construção
Zema é um dos políticos que mais cresceu no campo conservador nos últimos anos sem ser do campo bolsonarista tradicional. Empresário antes de entrar na política, foi eleito governador de Minas Gerais em 2018 — o estado mais endividado do Brasil — e reeleito em 2022, tornando-se o único governador mineiro a ser reeleito nas últimas décadas.
Sua gestão em Minas foi marcada por medidas de ajuste fiscal severas — corte de gastos, controle de salários do funcionalismo e renegociação da dívida com a União — que lhe renderam tanto elogios do mercado financeiro quanto críticas de servidores públicos e sindicatos.
O que é a websérie “Os Intocáveis”
A websérie “Os Intocáveis” é uma produção publicada por Zema nas redes sociais que utiliza ferramentas de inteligência artificial para criar sátiras com fantoches que representam figuras da política nacional e do Poder Judiciário.
Em episódios específicos citados na acusação, um personagem que faz referência ao ministro Gilmar Mendes é retratado em situações que sugerem favorecimento a interesses ligados ao Banco Master. Os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli aparecem representados por fantoches em uma conversa sobre a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado e ao chamado escândalo envolvendo o Banco Master.
O conteúdo simulava diálogos entre os dois magistrados e insinuava interferências em decisões judiciais e supostas trocas de favores dentro da Corte — especificamente ligando Gilmar Mendes ao escândalo do Banco Master e à CPI do Crime Organizado.
A denúncia da PGR — o que Paulo Gonet argumenta
A peça acusatória foi formalizada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e submetida ao STJ. O encaminhamento ao STJ justifica-se pelo foro especial que Zema detinha à época em que os materiais foram publicados — ele ainda era governador de Minas Gerais.
De acordo com a PGR, o conteúdo dos vídeos extrapolou o exercício legítimo da liberdade de expressão e da crítica política ao imputar condutas criminosas ao magistrado. Paulo Gonet sustentou que a conduta do ex-governador não se enquadra como paródia ou inconformismo institucional.
No parecer enviado ao STJ, o procurador-geral argumentou que Zema “não se limitou a formular crítica institucional, paródia política ou inconformismo com decisão judicial. Ao atribuir falsamente ao ministro Gilmar Mendes a prática de corrupção passiva, fez incidir o tipo de calúnia, previsto no artigo 138 do Código Penal, que pune a imputação falsa de fato definido como crime.”
A PGR também pediu a condenação do ex-governador ao pagamento de indenização equivalente a 100 salários mínimos por danos morais. A manifestação foi protocolada por volta das 17h30 e ainda não tinha relator definido no STJ.
A resposta de Zema — “não vou recuar um milímetro”
A resposta do ex-governador foi publicada nas redes sociais ainda na tarde de sexta-feira e rapidamente viralizou:
“Os intocáveis não aceitam críticas. Os intocáveis não aceitam o humor. Os intocáveis não querem prestar contas de seus atos. Os intocáveis se julgam acima dos demais brasileiros. Se estão incomodados com uma sátira, deve ser que a carapuça serviu. Não vou recuar um milímetro”, declarou Zema.
O ex-governador classificou o STF como um “balcão de negócios” e sustentou que o vídeo publicado por ele tinha caráter satírico — e que sátira política não é calúnia.
Os aliados que saíram em defesa de Zema
A denúncia provocou reação imediata de aliados políticos do campo conservador.
O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD — Partido Social Democrático — MG), saiu em defesa de Zema. Em publicação no X, Simões afirmou: “Mais de 20 anos de sala de aula como professor de Direito me permitem afirmar com tranquilidade: sátira política não é calúnia. Enquanto facções avançam pelo Brasil e o cidadão paga o preço da insegurança, a PGR resolve denunciar o ex-governador Romeu Zema por uma denúncia social cômica com uso de fantoches — e ainda pede 100 salários mínimos de reparação. Quem não pode ser criticado não pode ocupar posição pública. Zema tem todo o meu apoio.”
O argumento de Simões resume o principal ponto da defesa de Zema: sátira política — mesmo quando mordaz e exagerada — é uma forma legítima de crítica protegida pela liberdade de expressão. Criminalizar a sátira seria um retrocesso para a democracia.

O embate com Gilmar Mendes — como chegamos até aqui
O conflito entre Zema e Gilmar Mendes tem uma história que antecede os vídeos.
Gilmar Mendes afirmou que os vídeos “vilipendiam a honra e a imagem do STF” e pediu a inclusão do ex-governador no inquérito das fake news. Para o magistrado, o conteúdo divulgado “excederia o escopo da liberdade de expressão e da crítica política.”
Em meio à troca de críticas, Gilmar ironizou o sotaque do ex-governador e afirmou que ele “governou Minas com liminares do STF”, em referência a decisões que suspenderam pagamentos da dívida do estado com a União. Em auge do embate, Gilmar pediu a inclusão de Zema no inquérito das fake news, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.
No fim de abril, a própria PGR arquivou um pedido de investigação contra Gilmar Mendes por suposta homofobia em declarações dirigidas a Zema. Durante entrevista ao portal Metrópoles, o magistrado questionou se representar o governador como “homossexual” não seria ofensivo. Horas depois, Gilmar publicou pedido de desculpas: “Não tenho receio de reconhecer um erro. Errei quando citei a homossexualidade ao me referir ao que seria uma acusação injuriosa contra o ex-governador Romeu Zema. Desculpo-me pelo erro.”
O debate jurídico — sátira ou calúnia?
O caso Zema x Gilmar Mendes levanta uma questão constitucional genuinamente complexa que divide juristas brasileiros.
O argumento da acusação: A PGR sustenta que há uma linha clara entre sátira — que exagera características reais para efeito humorístico — e calúnia — que imputa falsamente a prática de crimes. Nos vídeos de Zema, Gilmar Mendes aparece não apenas sendo ridicularizado, mas sendo retratado como corrupto — recebendo vantagens em troca de decisões judiciais. Isso, segundo a PGR, vai além da sátira e configura imputação falsa de crime.
O argumento da defesa: A defesa de Zema sustenta que os vídeos são claramente satíricos — o uso de fantoches e IA para representar os ministros deixa evidente que não se trata de documentário ou relato factual. A hipérbole e o exagero são elementos intrínsecos à sátira política, e criminalizar esse tipo de conteúdo criaria um precedente perigoso para a liberdade de expressão no Brasil.
Juristas consultados pela imprensa dividem-se sobre a questão. A linha entre sátira legítima e calúnia não é tão clara quanto qualquer das partes pretende — e a decisão do STJ vai ter impacto significativo sobre os limites da crítica política no Brasil.
O impacto eleitoral — Zema usa o caso como palanque
Para Zema, a denúncia da PGR é politicamente ambígua. Por um lado, um processo criminal pode complicar sua candidatura à presidência — dependendo do andamento, pode gerar discussões sobre elegibilidade. Por outro, a postura combativa do ex-governador — “não vou recuar um milímetro” — ressoa fortemente com o eleitorado conservador que vê no STF um poder que se julga acima da lei e da crítica.
A estratégia de Zema tem sido exatamente essa: usar o conflito com o STF como elemento central de sua pré-candidatura, posicionando-se como o único candidato disposto a enfrentar o Judiciário abertamente — sem a cautela que marcou candidatos como Tarcísio de Freitas (Republicanos — SP) ou a postura mais transacional de Flávio Bolsonaro (PL — RJ, Rio de Janeiro).
Essa estratégia tem um eleitorado claro — o segmento que considera o STF uma instituição politicamente capturada e que quer um presidente disposto a enfrentá-la. A questão é se esse eleitorado é grande o suficiente para levar Zema ao segundo turno.
O que acontece agora
A manifestação da PGR foi protocolada por volta das 17h30 e ainda não tinha relator definido no STJ. O próximo passo é a designação de um relator pelo STJ, que vai analisar a denúncia e decidir se a aceita — transformando Zema em réu — ou a rejeita.
Caso a denúncia seja aceita, Zema se tornará réu num processo criminal por calúnia enquanto tenta construir uma candidatura presidencial. Isso não impede automaticamente sua candidatura — a legislação eleitoral brasileira estabelece condições específicas para inelegibilidade — mas adiciona um elemento de incerteza jurídica à sua corrida.
O Brasil acompanha. E o debate sobre os limites da crítica política ao Judiciário — que Zema transformou em tema central de sua pré-candidatura — vai continuar muito além desta denúncia.
O Política Forte acompanha o caso Zema x Gilmar Mendes e os desdobramentos eleitorais de 2026. Acompanhe nossas atualizações.







