Operação Castratio: deputado federal preso, R$ 200 milhões desviados e o escândalo que expõe a corrupção no RJ

Operação Castratio — PF investiga fraude de R$ 200 milhões em contratos no Rio de Janeiro

Na manhã de 12 de maio de 2026, agentes da Polícia Federal deflagraram a Operação Castratio no Rio de Janeiro — e o nome escolhido para a investigação já antecipava a natureza inusitada do esquema descoberto. Contratos públicos superfaturados para serviços de castração animal serviram de fachada para um esquema de desvio de recursos que, segundo as investigações, alcança a casa dos R$ 200 milhões. No centro do escândalo: o deputado federal Marcelo Queiroz (PP-RJ), que teve o celular apreendido pelos investigadores e é apontado como figura central do esquema.

O que é a Operação Castratio

A Operação Castratio é uma investigação da Polícia Federal, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, que apura irregularidades em contratos públicos firmados no estado do Rio de Janeiro para a prestação de serviços de castração de animais — especialmente cães e gatos em programas municipais de controle populacional de animais domésticos.

O esquema investigado funciona da seguinte forma, segundo a PF: empresas com ligação ao grupo investigado venciam licitações para prestar serviços de castração animal em municípios do Rio de Janeiro. Os contratos eram superfaturados — os valores pagos eram muito superiores ao custo real dos serviços prestados, quando estes eram prestados. A diferença entre o valor contratado e o valor efetivamente gasto era desviada e distribuída entre os envolvidos no esquema por meio de uma complexa rede de empresas de fachada e contas no exterior.

O nome “Castratio” é uma referência direta ao objeto dos contratos — mas também uma alusão ao que os investigadores descrevem como a “castração” dos recursos públicos destinados a uma política legítima de bem-estar animal.

Quem é Marcelo Queiroz

Nome completo: Marcelo Queiroz Partido: Progressistas (PP) Cargo: Deputado federal pelo Rio de Janeiro — terceiro mandato Filiações anteriores: MDB, DEM

Marcelo Queiroz é um parlamentar com longa trajetória na política fluminense. Eleito deputado federal pela primeira vez em 2014, foi reeleito em 2018 e 2022 — sempre com base eleitoral concentrada na região metropolitana do Rio de Janeiro, especialmente em municípios da Baixada Fluminense.

Antes de se tornar deputado federal, Queiroz foi vereador no município de Nova Iguaçu e assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Sua trajetória política é marcada pela atuação em temas de infraestrutura municipal e políticas de saúde pública — incluindo, ironicamente, programas de bem-estar animal.

No Congresso, integra a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável — comissão que, entre outros temas, trata de políticas relacionadas à fauna e ao bem-estar animal. Essa posição teria sido, segundo a investigação, instrumental para facilitar o acesso do esquema a informações sobre licitações e contratos nessa área.

Como o esquema funcionava

Segundo os documentos obtidos pela PF durante a Operação Castratio, o esquema operava em múltiplas camadas de sofisticação para dificultar sua identificação.

Na primeira camada, empresas controladas por laranjas — pessoas sem histórico empresarial relevante — venciam licitações municipais apresentando propostas dentro dos parâmetros exigidos pelos editais. A legalidade aparente do processo licitatório dificultava a identificação do esquema em auditorias rotineiras.

Na segunda camada, os contratos eram executados de forma parcial ou com serviços de qualidade muito inferior ao contratado. Os relatórios de execução contratual, no entanto, atestavam o cumprimento integral das obrigações — relatórios que, segundo a PF, eram assinados por servidores municipais que faziam parte do esquema.

Na terceira camada, os recursos desviados eram movimentados por uma rede de empresas intermediárias antes de chegarem ao destino final — contas no exterior e investimentos em imóveis e veículos de luxo no Brasil.

A investigação identificou pelo menos 23 municípios do Rio de Janeiro onde o esquema teria operado entre 2019 e 2025 — um período de seis anos que atravessou diferentes gestões municipais e estaduais.

O papel do deputado nas investigações

Marcelo Queiroz não foi preso durante a Operação Castratio — e isso tem uma razão jurídica específica. Como deputado federal, ele possui foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal, o que significa que sua prisão só poderia ser determinada pelo próprio STF, não pela Polícia Federal ou por um juiz de primeira instância.

O que a PF fez foi apreender seu celular pessoal — medida autorizada pelo STF — e conduzir buscas em endereços ligados ao parlamentar e a pessoas de seu círculo. O celular é considerado pelos investigadores uma fonte crucial de evidências, pois pode conter mensagens, registros de ligações e documentos que comprovem a participação do deputado no esquema.

Segundo fontes da investigação, Queiroz teria atuado como o elo entre as empresas envolvidas no esquema e os gestores municipais responsáveis pelos contratos — usando sua influência política para facilitar o acesso das empresas às licitações e para garantir que os relatórios de execução atestassem serviços que não foram integralmente prestados.

A defesa do deputado negou todas as acusações e classificou a operação como “perseguição política”. O advogado de Queiroz afirmou que o parlamentar está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações e que os fatos apurados pela PF não correspondem à realidade.

O contexto mais amplo — corrupção em contratos municipais

A Operação Castratio não é um caso isolado — é mais um capítulo de um problema estrutural que afeta a administração pública brasileira em todos os níveis: a corrupção em contratos municipais de pequeno e médio porte.

Contratos municipais são, historicamente, um dos terrenos mais férteis para esquemas de corrupção no Brasil. Licitações de menor valor ficam fora do radar das grandes operações anticorrupção, os mecanismos de controle são frequentemente mais frágeis do que nas esferas estadual e federal, e a proximidade entre contratantes e contratados facilita a formação de conluios.

O fato de que o esquema da Castratio usou contratos de bem-estar animal — uma área de políticas públicas de baixo perfil político e pouca visibilidade — como fachada é particularmente revelador dessa dinâmica. Áreas de baixa visibilidade são exatamente as mais vulneráveis à captura por esquemas de desvio.

O que vem a seguir

As investigações da Operação Castratio estão em fase inicial. O conteúdo do celular de Marcelo Queiroz, quando analisado pelos peritos da PF, pode abrir novas frentes investigativas e revelar outros envolvidos no esquema.

O STF vai precisar decidir sobre os próximos passos em relação ao deputado — incluindo eventual autorização para medidas cautelares mais restritivas, como o afastamento do mandato parlamentar, caso as evidências colhidas justifiquem essa medida.

No Congresso, a operação gerou reações variadas. Aliados de Queiroz pediram cautela e presunção de inocência. Parlamentares de oposição ao deputado pediram a abertura de processo no Conselho de Ética da Câmara. O presidente Hugo Motta sinalizou que a casa vai aguardar o desenvolvimento das investigações antes de tomar qualquer medida institucional.

A Operação Castratio é um lembrete de que a corrupção no Brasil não tem endereço fixo — e que os esquemas mais sofisticados frequentemente se escondem nos lugares mais inesperados.

O Política Forte acompanha a Operação Castratio e as investigações de corrupção no Brasil. Acompanhe nossas atualizações.

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