Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao seu terceiro mandato como presidente do Brasil em janeiro de 2023 carregando uma missão que poucos políticos já foram capazes de cumprir: reconquistar a presidência após uma derrota eleitoral, um processo judicial que o tirou da disputa de 2018 e quatro anos de oposição ao governo de seu maior adversário. Ele conseguiu — por margem estreita, em uma das eleições mais disputadas da história brasileira. Agora enfrenta outro desafio igualmente difícil: convencer o eleitorado de que merece mais quatro anos.
O contexto do terceiro mandato
Para entender a situação eleitoral de Lula em 2026, é preciso compreender o contexto em que seu terceiro mandato se desenvolveu — e por que ele é estruturalmente mais difícil do que seus dois primeiros.
Lula governou de 2003 a 2010 em um período excepcionalmente favorável para o Brasil. O boom das commodities, especialmente do minério de ferro e da soja, injetou recursos abundantes na economia brasileira. O crédito se expandiu para camadas da população que nunca haviam tido acesso a financiamento. A combinação de crescimento econômico, programas sociais robustos e um mercado de trabalho aquecido criou as condições para índices de aprovação históricos — chegando a 87% ao final de seu segundo mandato.
O Brasil de 2023-2026 é radicalmente diferente. O ciclo das commodities arrefeceu. A herança fiscal do período pandêmico impõe restrições ao gasto público. A inflação — especialmente dos alimentos — corrói o poder de compra das famílias de menor renda, que são a base histórica do PT. E a polarização política, mais intensa do que em qualquer período anterior, limita a capacidade de Lula de expandir sua base para além do eleitorado que já o apoiava.
Os números que preocupam o Planalto
Os índices de aprovação do governo Lula em 2026 contam uma história de expectativas não atendidas. Após um início de governo com aprovação razoável — impulsionada pela expectativa de mudança após quatro anos de governo Bolsonaro — os números foram cedendo ao longo de 2023, 2024 e 2025.
As pesquisas mais recentes mostram um presidente com aprovação que oscila entre 35% e 45% dependendo do instituto e da metodologia utilizada. Para um presidente que governou com 87% de aprovação em seu pico histórico, esses números são modestos. Para um presidente em busca de reeleição, são preocupantes — mas não fatais.
O dado mais revelador não é a aprovação geral, mas a avaliação econômica. Uma parcela significativa dos eleitores que votaram em Lula em 2022 afirmam que sua situação financeira pessoal não melhorou desde o início do governo. Essa percepção — independentemente do que dizem os indicadores macroeconômicos — é o principal obstáculo à reeleição.

Os erros do governo
Uma análise honesta da situação eleitoral de Lula precisa identificar os erros cometidos pelo governo — porque negá-los seria intelectualmente desonesto e politicamente ineficaz.
O fiscal como ponto fraco permanente
A relação do governo Lula com a política fiscal nunca foi de plena convicção. O arcabouço fiscal aprovado em 2023 foi apresentado como substituto responsável do teto de gastos — mas as sucessivas pressões por exceções e a resistência a cortes de despesas criaram percepções negativas no mercado financeiro que se traduziram em câmbio depreciado e juros altos.
O custo político do câmbio fraco e dos juros elevados é direto e imediato: bens importados ficam mais caros, o crédito fica mais caro e a inflação — especialmente dos alimentos, muitos dos quais têm preço influenciado pelo mercado internacional — fica mais difícil de controlar. São exatamente esses fatores que explicam por que parcelas do eleitorado de menor renda — a base histórica do PT — expressam insatisfação com o governo.
A comunicação fragmentada
O governo Lula de 2023-2026 nunca conseguiu construir uma narrativa coesa sobre suas realizações. Enquanto o governo Bolsonaro foi eficaz em comunicar — mesmo que de forma distorcida — uma visão de mundo clara e simples, o governo Lula produziu uma avalanche de programas, iniciativas e anúncios que raramente se traduziram em uma mensagem política articulada.
O eleitor médio, especialmente fora das grandes cidades, tem dificuldade de identificar o que o governo Lula fez de concreto por ele. Isso não significa que o governo não fez nada — mas significa que o que foi feito não foi comunicado de forma eficaz.
Os aliados problemáticos
A base aliada do governo Lula no Congresso inclui partidos e políticos que representam riscos permanentes de desgaste por associação. Escândalos que afetam aliados do governo — como o caso do Banco Master e suas conexões com parlamentares da base governista — contaminam a imagem presidencial mesmo quando Lula não tem envolvimento direto.
A gestão dessa base aliada tem sido um dos aspectos mais desafiadores do terceiro mandato — porque o governo precisa do Centrão para governar, mas paga um preço de imagem permanente por essa associação.
O que precisa mudar para Lula vencer em outubro
A equipe do governo está ciente dos problemas — e a estratégia para os meses que antecedem outubro está sendo construída em torno de alguns eixos principais.
Resultados econômicos concretos e visíveis
O fator que mais pode mover a aprovação de Lula nos próximos meses é a percepção econômica do eleitorado. Para isso, o governo precisa de resultados que cheguem diretamente ao bolso das famílias — controle da inflação dos alimentos, manutenção do crescimento do mercado de trabalho e reajuste real do salário mínimo são os instrumentos mais poderosos disponíveis.
Uma narrativa eleitoral clara
O governo precisa construir uma narrativa eleitoral que responda a uma pergunta simples: por que Lula e não o candidato da oposição? Essa narrativa precisa ser mais do que uma lista de realizações — precisa conectar emocionalmente com o eleitorado e oferecer uma visão de futuro convincente.
A agenda internacional como ativo
A reunião com Trump em maio de 2026 mostrou que Lula pode usar sua experiência e seu reconhecimento internacional como ativos eleitorais. Um presidente que negocia com as maiores potências do mundo em nome do Brasil projetou competência e statesman — atributos valorizados por parcelas do eleitorado que estão em disputa.
A questão da vice-presidência
Geraldo Alckmin, vice-presidente de Lula, tem sido um dos aspectos mais bem-sucedidos do governo — especialmente na relação com o setor empresarial e com o eleitorado de centro que Lula precisa para vencer. Manter Alckmin na chapa é uma decisão praticamente certa — e correta.
O que está fora do controle de Lula
Há fatores que vão influenciar o resultado de outubro independentemente do que o governo faça.
O desempenho da economia global — especialmente o preço das commodities e o câmbio — tem impacto direto sobre a percepção econômica dos brasileiros e está fora do controle do Planalto. Uma deterioração do cenário externo nos meses que antecedem a eleição poderia ser fatal para as chances de reeleição.
A saúde de Lula é outro fator sobre o qual o governo tem controle limitado. O presidente passou por procedimentos médicos durante o mandato — e qualquer problema de saúde que ganhe visibilidade pública nos meses de campanha poderia influenciar negativamente a percepção do eleitorado sobre sua capacidade de governar por mais quatro anos.
E os escândalos — que em política raramente podem ser previstos com antecedência — são uma variável permanente de risco. O governo que consegue chegar à campanha sem um escândalo de grande magnitude afetando diretamente o presidente tem uma vantagem significativa.
Outubro como teste definitivo
Lula já provou que é capaz de superar adversidades políticas que pareciam intransponíveis. Sua trajetória — de metalúrgico sem diploma universitário a três mandatos presidenciais, passando por uma condenação e uma prisão — é uma das mais extraordinárias da política brasileira.
Mas 2026 vai testar essa capacidade de superação de uma forma diferente das anteriores. Não é mais uma questão de resistência pessoal ou de injustiça a ser combatida. É uma questão de governança — de convencer o eleitorado de que os últimos quatro anos merecem mais quatro.
A resposta a essa pergunta chegará em outubro. E o Brasil — dividido, polarizado e ansioso — vai decidir.
O Política Forte acompanha o governo Lula e o cenário eleitoral de 2026. Acompanhe nossas atualizações.







