Imagem: Agência Senado
O escândalo do Banco Master não está apenas abalando candidaturas individuais — está redesenhando o mapa de alianças do campo conservador às vésperas das eleições de outubro de 2026. Em menos de duas semanas, o senador Flávio Bolsonaro (PL — Partido Liberal — RJ, Rio de Janeiro) perdeu seu vice mais cotado, criou mal-estar com um dos partidos mais importantes de sua coalizão e viu a lógica de sua chapa presidencial ser colocada em xeque. Este artigo reconstrói a cronologia da crise interna do campo conservador e analisa o que cada movimento significa para outubro.
O vice que não será mais — Ciro Nogueira descartado
O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou em entrevista à CNN Brasil, em 8 de maio de 2026, que as acusações contra Ciro Nogueira (PP — Progressistas — PI, Piauí), alvo de operação da Polícia Federal (PF) por recebimento de propinas de Daniel Vorcaro para favorecer o Banco Master, são “graves” e descartou o parlamentar como vice.
A declaração foi significativa por dois motivos. Primeiro, porque Flávio havia, nos dias imediatamente anteriores à operação, sugerido Ciro Nogueira como possível nome para compor sua chapa presidencial como vice, destacando a relação de lealdade do senador piauiense com a família Bolsonaro e lembrando sua atuação no antigo governo federal.
Segundo, porque ao descartar Ciro publicamente — sem ter sido diretamente questionado sobre isso — Flávio sinalizou que estava disposto a se distanciar rapidamente de aliados comprometidos pelo escândalo, mesmo à custa de tensão interna.
A nota que causou “desastre” interno
Em nota divulgada em 7 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro afirmou acompanhar com atenção as notícias divulgadas pela imprensa sobre a operação da PF contra Ciro Nogueira. Sem citar diretamente o nome do aliado, disse que “fatos dessa natureza devem ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes, sempre com respeito ao devido processo legal” e declarou confiar na relatoria do ministro do STF André Mendonça no caso Master.
O tom da nota — distante e formal para quem havia sido apresentado dias antes como possível vice — causou reação imediata nos bastidores do campo conservador.
A manifestação causou desconforto entre integrantes do Centrão e até dentro da própria pré-campanha bolsonarista. Aliados de Flávio avaliaram que o tom adotado pelo senador ampliou o mal-estar com o PP. Alguns chegaram a classificar a repercussão da nota como um “desastre”, por entenderem que a manifestação transmitiu um excessivo distanciamento do presidente do partido aliado.
A defesa de Ciro — ele nega tudo
É importante registrar a posição do próprio Ciro Nogueira. As acusações de que Ciro Nogueira teria utilizado o mandato para beneficiar o Banco Master e recebido propina que poderia chegar a R$ 500 mil são negadas por ele.
A defesa de Ciro sustenta que as investigações da PF são baseadas em interpretações equivocadas de atos legislativos legítimos e que o senador não praticou qualquer ato ilícito em sua relação com o Banco Master. A presunção de inocência garante a Ciro o direito de responder às acusações no processo judicial — e esse processo ainda está em andamento.
O problema estratégico — a federação com PP e União Brasil
O distanciamento de Ciro Nogueira criou um problema estratégico que vai além da chapa presidencial.
Nos bastidores, aliados do senador avaliam que uma ruptura precipitada com PP e União Brasil teria elevado custo eleitoral, sobretudo em razão dos acordos estaduais já consolidados. O PL mantém entendimentos ou negociações avançadas com a federação em pelo menos nove estados.
Os acordos estaduais são detalhados e abrangentes:
No Distrito Federal (DF), o partido apoia a candidatura da vice-governadora Celina Leão. Na Bahia, há movimentações em torno de uma aproximação com ACM Neto (União Brasil). Em Alagoas, o PL deve caminhar ao lado de Arthur Lira (PP — AL, Alagoas) na disputa pelo Senado. No Tocantins, a tendência é de apoio à senadora Dorinha Seabra. As alianças também alcançam estados como Rio Grande do Sul (RS), Mato Grosso do Sul (MS), Ceará (CE) e Rio de Janeiro (RJ). Em São Paulo (SP), PP e União orbitam o grupo político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado peça central do projeto bolsonarista para 2026.
Romper com o PP por causa do escândalo de Ciro Nogueira — antes de qualquer condenação judicial — significaria colocar em risco acordos em pelo menos nove estados. Um custo eleitoral potencialmente muito maior do que o desgaste de imagem de manter a aliança.

A resposta do PL — “o que aconteceu diz respeito ao Ciro”
A liderança do PL na Câmara foi encarregada de calibrar o discurso público e proteger a federação.
O líder do PL na Câmara dos Deputados, deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL — RJ, Rio de Janeiro), declarou: “O que aconteceu diz respeito ao Ciro, não à federação. Tudo que o Lula quer é que desistamos da federação para tentar pegar o tempo de televisão.”
A declaração de Sóstenes captura a lógica estratégica do PL: separar o problema individual de Ciro Nogueira — que é real e grave — do problema institucional da federação com PP e União Brasil — que seria fabricado por adversários que querem enfraquecer o campo conservador antes das eleições.
Entre os aliados do PL, cresce a preocupação com a exploração política do caso pela campanha de Lula. O temor é que a campanha governista use o escândalo para pressionar partidos do Centrão a se afastarem do PL — enfraquecendo a coalizão conservadora antes mesmo do início oficial da campanha.
Flávio busca uma mulher para a vice — quem são as cotadas
Após descartar Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro declarou estar à procura de uma mulher para compor a chapa presidencial.
A decisão de buscar uma vice mulher é simultaneamente estratégica e política. Estratégica porque o campo conservador historicamente tem dificuldade com o eleitorado feminino — que representa mais de 52% do eleitorado brasileiro e que, nas últimas eleições, votou de forma desproporcional contra os candidatos bolsonaristas. Uma vice mulher seria um sinal de abertura para esse segmento.
Política porque demonstra que o PL está construindo uma candidatura que pretende ir além do eleitorado bolsonarista tradicional — buscando expandir para o centro e para segmentos que historicamente não votam no campo conservador.
Entre os nomes que circulam nos bastidores do PL como possíveis candidatas a vice de Flávio:
Celina Leão (PP — DF) — vice-governadora do Distrito Federal, com perfil de gestora e boa relação com o campo conservador e com o agronegócio.
Damares Alves (Republicanos — DF) — ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo Bolsonaro, senadora com forte base no eleitorado evangélico.
Bia Kicis (PL — DF) — deputada federal e vice-líder da oposição na Câmara, figura de alto perfil no bolsonarismo radical — uma escolha que energizaria a base mas limitaria a expansão para o centro.
A dificuldade de Flávio com Mendonça — “tem sorte”
Um dos trechos mais reveladores das declarações de Flávio Bolsonaro após o escândalo de Ciro foi sua referência ao ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), indicado pelo pai Jair Bolsonaro à Corte.
Sobre Ciro Nogueira, Flávio disse: “[Ciro Nogueira] pelo menos tem a sorte de ter a relatoria do seu caso no Supremo um ministro que não vai agir fora dos autos, que vai cumprir a lei, que não vai perseguir ninguém.”
A declaração é uma pedrada dupla. Por um lado, é um elogio a Mendonça — reforçando a narrativa de que o STF age de forma justa quando conduzido por ministros indicados pelo campo conservador. Por outro, é uma crítica implícita aos demais ministros do tribunal — sugerindo que outros relatores agiriam “fora dos autos” ou “perseguiriam” investigados.
O cenário para outubro — como o campo conservador está se reorganizando
O mapa de alianças do campo conservador para outubro de 2026 está sendo desenhado em tempo real, em meio aos escândalos e às movimentações eleitorais. O que é possível afirmar com base nos dados disponíveis em maio de 2026:
O PL vai manter a federação com PP e União Brasil — os acordos estaduais são valiosos demais para serem sacrificados por causa dos problemas individuais de Ciro Nogueira, que ainda não foi condenado por nenhum tribunal.
Flávio vai continuar como candidato presidencial — apesar dos escândalos, o senador mantém sua pré-candidatura e conta com o apoio declarado de Jair Bolsonaro, que é a variável mais importante na equação do campo conservador.
A chapa vai ter uma mulher como vice — a decisão já foi tomada e os bastidores do PL estão avaliando os nomes disponíveis em função de sua capacidade de expandir a base eleitoral de Flávio para além do eleitorado bolsonarista tradicional.
A federação com Tarcísio (Republicanos — SP) é central — o governador de São Paulo vai buscar a reeleição ao governo paulista, mas sua federação com o PL é um dos ativos mais valiosos do campo conservador para as eleições estaduais e para o Congresso.
O campo conservador está em crise — mas crises políticas raramente são fatais para campos que mantêm coesão mínima em torno de um candidato. O teste de outubro vai dizer se o PL conseguiu navegar o escândalo do Master sem perder a estrutura que o tornaria competitivo.
O Política Forte acompanha o cenário eleitoral e as movimentações do campo conservador. Acompanhe nossas atualizações.







