Daniel (à esq.) e o pai, Henrique Vorcaro, preso nesta quinta (14)
Na manhã de quinta-feira, 14 de maio de 2026, a Polícia Federal (PF) deflagrou a sexta fase da Operação Compliance Zero — e o que surgiu desta vez chocou até os investigadores mais experientes. Além de prender Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, a operação revelou algo ainda mais grave: agentes da própria Polícia Federal, incluindo uma delegada em atividade, teriam sido corrompidos pelo grupo investigado e estavam vazando informações sigilosas das investigações ao ex-banqueiro.
A descoberta — de que a organização criminosa havia infiltrado a própria instituição responsável por investigá-la — representa uma escalada dramática do maior escândalo financeiro e político do Brasil em 2025 e 2026.
As 6 fases da Operação Compliance Zero — linha do tempo completa
1ª fase — 18 de novembro de 2025: Deflagração inicial da operação, com a prisão de Daniel Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos (SP) enquanto tentava embarcar para Malta e Dubai. O BC decretou a liquidação do Banco Master horas depois. As investigações tiveram início em 2024 após requisição do MPF, que apontou emissão de títulos de crédito sem lastro e venda de carteiras de crédito fraudulentas ao BRB.
2ª fase — janeiro de 2026: Ampliação do foco investigativo para o patrimônio dos investigados. A PF realizou novas buscas e o ministro Dias Toffoli, do STF, determinou o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em ativos. As suspeitas passaram a incluir lavagem de dinheiro e manipulação de mercado. O caso chegou ao STF, e o ministro André Mendonça assumiu a relatoria após indicações de possível proximidade entre Vorcaro e o ministro Toffoli.
3ª fase — março de 2026: Vorcaro foi preso novamente pela PF. A operação também atingiu familiares do banqueiro — pai, irmã, cunhado e primo foram alvos de buscas. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi detido no Aeroporto de Guarulhos tentando embarcar para os Emirados Árabes. O empresário Nelson Tanure, conhecido por investimentos em empresas em dificuldades, também foi alvo.
4ª fase — 16 de abril de 2026: Foco na relação entre BRB e Banco Master. A PF prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, suspeito de receber propina por meio de imóveis de alto padrão em Brasília e São Paulo — seis imóveis avaliados em R$ 146 milhões teriam sido usados para ocultar vantagens indevidas. O advogado Daniel Monteiro, que teria representado o Master em negociações com o BRB, também foi alvo.
5ª fase — 7 de maio de 2026: A investigação atingiu o senador Ciro Nogueira (PP — Piauí). A PF cumpriu 10 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária no Piauí, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. Na residência do senador foram apreendidos uma motocicleta Honda CB1000, um BMW 440i e um malote com evidências. Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel, foi preso em Minas Gerais. A investigação apontou repasses mensais de R$ 500 mil ao senador.
6ª fase — 14 de maio de 2026: A fase mais explosiva até agora — detalhada a seguir.
A 6ª fase — os alvos e as revelações
A Polícia Federal deflagrou a sexta fase da Operação Compliance Zero com o objetivo de aprofundar as investigações em face de organização criminosa suspeita de praticar condutas de intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos. Foram cumpridos 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e de sequestro e bloqueio de bens.
O pai de Vorcaro — Henrique Vorcaro
O principal alvo desta fase é Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro. Ele é apontado pela investigação como um dos beneficiários do filho, que chegou a depositar recursos em sua conta bancária. A PF afirma que Henrique continuou mantendo contato com integrantes da estrutura investigada mesmo depois das primeiras fases da operação. Em uma das mensagens citadas na decisão do STF, Henrique afirma: “no momento em que estou é que preciso de vocês” — o que, segundo os investigadores, demonstra que ele seguia recorrendo aos serviços do grupo mesmo após o avanço das apurações.
Para ocultar sua atuação, a investigação aponta que Henrique Vorcaro fazia uso de linha telefônica estrangeira registrada na Colômbia e trocava frequentemente de números de telefone.
Agentes da PF corrompidos — a revelação mais grave
O ministro André Mendonça, do STF, determinou o afastamento de uma delegada da PF, que foi alvo de busca e apreensão, e a prisão de um agente da ativa da corporação, suspeitos de vazar informações ao grupo de Vorcaro. Outros dois agentes aposentados da PF também foram alvos de busca e apreensão.
As investigações revelaram que o grupo contratado pelo banqueiro para influenciar as apurações realizava atividades de vigilância, coleta de informações e monitoramento. O coordenador operacional do grupo, identificado como Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — apelidado de “Sicário” — realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos, incluindo bases utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial, usando credenciais funcionais de outras pessoas.
Segundo o ministro André Mendonça, o investigado teria obtido acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal, e até mesmo de organismos internacionais, como o FBI e a Interpol.

“A Turma” e “Os Meninos” — os dois grupos criminosos
A 6ª fase revelou em detalhes a estrutura dos dois grupos que operavam para proteger Vorcaro e obstruir as investigações:
“A Turma” era responsável por ameaças, intimidações presenciais, levantamentos clandestinos e obtenção ilegal de informações sigilosas. O grupo atuava com métodos de inteligência privada — monitorando autoridades, investigadores e testemunhas para antecipar movimentos da PF.
“Os Meninos” atuava com ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis em redes sociais e monitoramento digital ilegal. A divisão de tarefas entre os dois grupos criava uma estrutura de proteção sofisticada ao redor do esquema investigado.
A PF afirma que novos elementos reunidos indicam a “persistência das atividades ilícitas” e a continuidade da atuação dos dois grupos mesmo depois das primeiras ações policiais. Conversas interceptadas mencionam repasses de R$ 400 mil e negociações envolvendo pagamentos de até R$ 800 mil para manutenção das atividades.
Vorcaro tinha acesso antecipado às investigações
Uma das revelações mais perturbadoras da 6ª fase é que Daniel Vorcaro sabia com antecedência o que a PF estava planejando:
Vorcaro teve acesso antecipado a diligências da investigação, de acordo com registros localizados pela própria PF. O empresário teria inclusive feito anotações sobre autoridades e procedimentos policiais em curso — demonstrando que o vazamento de informações permitia ao grupo se preparar para as ações da PF antes que elas ocorressem.
Esse dado explica vários episódios que intrigavam os investigadores nas fases anteriores — como a tentativa de fuga de Vorcaro no aeroporto na 1ª fase, que sugeriu que ele tinha sido alertado sobre a iminência de sua prisão.
O rombo bilionário e os investigados políticos — panorama atualizado
Com seis fases concluídas, a Operação Compliance Zero se consolidou como a maior investigação financeira da história recente do Brasil:
O custo para o FGC já alcança cerca de R$ 51,8 bilhões — o maior acionamento do fundo na história do Brasil. Oito instituições ligadas ao caso Master estão em regime de liquidação extrajudicial, incluindo o Will Bank (Will Financeira) e o Banco Pleno.
No campo político, as investigações já atingiram diretamente:
- Senador Ciro Nogueira (PP-PI) — suspeita de receber R$ 18 milhões em repasses mensais
- Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — negociações de R$ 134 milhões para filme Dark Horse
- Deputado Mario Frias (PL-SP) — intermediário nas negociações do filme
- Ex-presidente Michel Temer — citado como receptor de recursos
- Família do ministro Alexandre de Moraes — contratos com empresa ligada a Vorcaro
O que vem a seguir
A Polícia Federal segue rastreando patrimônio, operações financeiras e possíveis beneficiários dos recursos investigados. As defesas dos citados ainda podem se manifestar no processo e novas medidas não estão descartadas.
A descoberta de agentes corrompidos dentro da própria PF vai exigir uma investigação paralela sobre a extensão do vazamento de informações — quantas operações foram comprometidas, quais alvos foram alertados e por quanto tempo o esquema de corrupção interna operou. Essa investigação dentro da investigação pode levar meses.
O ministro André Mendonça, do STF, continua como relator do caso — e a 7ª fase da Operação Compliance Zero pode ser deflagrada a qualquer momento, dependendo do andamento da análise do material apreendido nas fases anteriores.
Uma coisa é certa: o Brasil ainda não viu o capítulo final desta história.
O Política Forte acompanha todos os desdobramentos da Operação Compliance Zero. Acompanhe nossas atualizações.








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